Limpezas florestais no concelho "abalam" idosos

A obrigatoriedade de limpar matos e florestas na proximidade de casas e aldeias, sob pena de enfrentar pesadas multas, tem levado muitos idosos ao desespero. Fragilizados, sozinhos ou isolados, com reformas pequenas, que muitas vezes não chegam sequer para os medicamentos, os proprietários mais envelhecidos entraram em pânico, principalmente quando receberam cartas do fisco a avisar que as multas este ano eram a dobrar e que se arriscavam a execuções fiscais.

Sem dinheiro para mandar efetuar as limpezas, nem saúde para as fazerem eles próprios, dizem-se revoltados por serem obrigados a cortar aquilo que era “o seu pé de meia”, o único rendimento que lhes permitia “pôr algum de parte”, e manifestam “uma perda muito grande”.


Tendo ainda bem presente na memória a tragédia dos incêndios do ano passado garantem querer cumprir a legislação, que obriga a um corte numa faixa de 50 metros à volta de habitações isoladas e 100 metros na envolvente das aldeias.
 

Mas aos seus recursos limitados junta-se a falta de empresas para limpezas florestais e as que existem não têm mãos a medir. A procura tem sido de tal ordem que levou a um aumento dos preços e “alguns querem a madeira dada”, contam os idosos.


As limpezas florestais vieram “arrasar” a paisagem e transformar a vida de muita gente. Pelo menos seis idosos já morreram este ano, no centro e no norte do país, apanhados pelo fogo quando tentavam queimar restos agrícolas e pastagens.

 

Entre médicos e eucaliptos

 

Proprietários de terrenos confinantes com um aviário, no Maxial, Vasco Laureano e a irmã há anos que tinham garantida uma faixa de segurança de 12 metros entre o seu eucaliptal e aquela estrutura, mas agora a lei obriga a um mínimo de 50.


“Estava descansado com isto, julguei sempre que não era preciso mais”, afirma Vasco Laureano, um homem que aos 76 anos não esconde o desalento que lhe vai na alma.

Recebeu com surpresa a notificação da Câmara, que chegou à sua caixa do correio no fim do mês de maio, já o prazo legal para as limpezas tinha terminado.

Os dias que se seguiram Vasco Laureano passou-os entre o hospital, consultas e exames. A irmã, com quem vive o antigo carpinteiro, também foi operada nessa altura, o que veio complicar ainda mais a rotina dos dois. “Não tenho tido tempo e tudo isto me complica com a cabeça”, diz enquanto se confessa “muito pessimista”.
 

Vasco Laureano terá de cortar cerca de um hectare de eucaliptos, num terreno com pouco mais de três. “Fica a fazenda cortada ao meio, sem nada, e ainda faltavam quatro anos para cortar os eucaliptos. Se eu fosse novo e tivesse saúde ainda podia pôr lá outras coisas, oliveiras por exemplo, mas sou velho e não tenho saúde. Que vou fazer ali?”, num terreno que lhe deu “o único dinheirinho que tenho no banco”.


Embora se encontre profundamente abalado e doente assegura que “vou tratar de cumprir com o que mandam, mas que me deem mais tempo”, pede de voz embargada, enquanto faz contas à vida, “se não fosse a minha irmã... eu tenho uma reforma de 400 euros”.


Bombeiro voluntário durante 20 anos garante saber bem o que é andar no mato e ver--se cercado de chamas, sem ter por onde fugir. É por isso que a experiência lhe diz que a limpeza e criação de caminhos florestais deveria ser prioritária. “A gente sabe que o fogo passa por cima, mas uma serventia limpa já é um corta-fogo e é importante para um carro dos bombeiros poder entrar e sair rapidamente em caso de aflição, que é o que muitas vezes acontece aí nas charnecas”.
 

Pequenos proprietários são quem mais tem sofrido

 

À frente dos destinos de uma freguesia onde 60 por cento do solo é ocupado com produção florestal no Ramalhal, Espírito Santo conta que as alterações à legislação “apanharam as pessoas de surpresa e alguns demoraram a reagir”.
 

O autarca tem acompanhado as equipas da GNR e do gabinete florestal da Câmara que têm andado no terreno a esclarecer a população e diz que “são os pequenos proprietários quem mais tem sofrido”. É deles a maioria dos terrenos que estão no limite da zona urbana da freguesia, de gente que via no pequeno eucaliptal um complemento económico.
 

“Tem sido trágico”, frisa o presidente, que procura dar resposta a todos os pedidos de ajuda que chegam à Junta. E têm sido muitos. A procura de empresas de limpeza de terrenos florestais “levou a algumas situações abusivas, como o aumento dos preços”, afirma.


Percorrendo a localidade o trabalho feito até agora é notório. No entanto, quando olha para os terrenos “arrasados” Espírito Santo diz--se “desolado” e confessa que “gostava mais da paisagem que tinha”.

O autarca reconhece a necessidade de uma intervenção no terreno, mas considera que “há uma dose de exagero, 100 metros em certos locais não se justifica”.

Espírito Santo diz-se ainda “entristecido que tenha sido preciso morrer gente para o sino tocar a re-bate”.
 

A maquinaria e o pessoal da Junta têm andado no terreno quase todos os dias durante as últimas semanas. A Junta tem feito trabalhos de limpeza e manutenção ao longo de todo o território e em lotes abandonados há mais de 10 anos, para que não ponham em perigo as moradias anexas. “Alguns nem sabemos quem são os donos” e outros casos há de terrenos com mais de 20 herdeiros “e ninguém se entende”.
 

O mesmo sucede no Maxial, onde “temos terrenos que tenho perfeita consciência de que os proprietários não sabem que os têm, porque é herança de herança, de herança. Gente nova que vive em Lisboa e que não vêm cá há 20 anos”, conta Celso Carvalho.
 

Idosos estão “abaladíssimos”

 

No concelho de Torres Vedras as limpezas são bem visíveis, mais até que noutras zonas do país, mas há ainda muito por fazer. As freguesias de Ramalhal e Maxial e Monte Redondo foram declaradas pelo Governo como áreas prioritárias e é aí que a fiscalização da GNR tem sido mais intensa.


É no território de Maxial e Monte Redondo que encontramos os proprietários mais envelhecidos e com maiores dificuldades. “Temos pessoas que esperavam por estes cortes de eucaliptais e agora acham que lhes caiu uma bomba em cima e ficam arruinadas”, sublinha Celso Carvalho, presidente da Junta.
 

Os idosos estão “abaladíssimos”, temem as multas e quem ainda não limpou garante que quer cumprir, mas pede mais tempo.

Quem já limpou, em meados de abril, terá certamente que voltar a limpar, pois os terrenos exigem manutenção e incorrem novamente em infração. “Eu não sei com que moral é que se vai multar estas pessoas, quando quem multa também não consegue cumprir”, denuncia Celso Carvalho.


O autarca defende que “não há juntas, municípios, nem governo ou entidades públicas que tenham conseguido fazer a tempo e horas tudo aquilo que era suposto”, e aponta o caso da Estrada Nacional 115-2, que começa na Aldeia Grande e acaba no Sarge, onde “não foi limpo um metro ainda e está à vista de todos. Acho difícil multarem estas pessoas, quando ainda não conseguiram fazer isto”.

 

“Queriam a madeira dada”

 

No bairro das Fontainhas, no limite da zona urbana daquela freguesia, dois irmãos reformados limpam os sobrantes num terreno agrícola, após um corte de eucaliptos numa faixa de 100 metros. Cumpriram o prazo legal e foram eles mesmos a fazer a limpeza. “Foi difícil, mas tivemos que nos sujeitar”, dizem os irmãos, que viam naquele chão “um pé de meia”, que agora “só serve para a gente se cansar”.
 

Os eucaliptos vão “ficar para a lareira”. Ainda falaram com um madeireiro, “mas queriam a madeira dada. Olhe, fica aí”, afirma Luís Filipe e recorda como ele e o irmão compraram um motor de rega com o valor do primeiro corte.
 

É com revolta que Luís Filipe aponta para o estado em que estão os terrenos vizinhos, “nós todos os anos limpamos, agora olhe para aquilo”. De um lado, à beira da estrada, está a propriedade de uma família do Alentejo em muito mau estado. “Foram notificados de certeza”, garante o presidente. Do outro figura um terreno cujo proprietário “tem Alzheimer e os filhos vêm da Alemanha para resolver o assunto”.

Ali perto, junto ao campo de futebol, foi a Junta que limpou um dos terrenos. O proprietário vive em Lisboa e pediu ajuda. “Há uma grande procura para estes trabalhos e o pessoal que está no terreno não tem mãos a medir. Temos um trator com destroçador aplicável e moto roçadoras e cortamos silvados e arbustos. As pessoas pagam um valor simbólico. Dá para pagar o gasóleo”, explica Espírito Santo.

 

“Não tinha recursos para pagar”

 

Um Acidente Vascular Cerebral (AVC) grave atirou Idália Maria da Silva Lopes para uma cadeira de rodas já lá vão 10 anos. Não é de estranhar, por isso, que tenha demorado a abrir a porta de casa, por onde surgem também dois gatos curiosos e de olhar espantado. São a sua única companhia e não estão habituados a visitas.
 

Idália Maria vivia em Lisboa quando a vida lhe pregou uma partida. O AVC chegou sem avisar e deixou sequelas. Retirou-lhe a mobilidade e teve também implicações na fala. A mulher, de 63 anos, acabou por regressar à terra natal, na freguesia do Ramalhal, onde vive sozinha numa moradia que pertencia aos pais e num terreno que é obrigatório limpar.
 

A sobreviver com uma pensão de invalidez, “medo e preocupação” foi o que Idália Maria sentiu quando percebeu que “não tinha recursos para pagar, nem para fazer a limpeza. Isso tirou-me o sono”, frisa. Sem ter a quem mais recorrer pediu ajuda à Junta de Freguesia.


A autarquia foi “sensível ao caso”, conta António Espírito Santo, presidente da Junta do Ramalhal, que há cerca de dois meses cortou o “autêntico silvado” em que estava transformado o terreno de Idália Maria. “Provavelmente ainda vamos ter de cá voltar, porque a erva já está a crescer”, diz o autarca.

 

 

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(FOTO: Eunice Francisco)

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